Turismo Regenerativo:
Quando viajar é também Restaurar, Incluir e Transformar
Nos últimos anos, o Turismo passou por profundas transformações. Se antes o foco estava apenas em promover destinos e aumentar o fluxo de visitantes, hoje a discussão se amplia para o impacto ambiental, social e econômico das viagens. Nesse cenário, o turismo sustentável ganhou destaque, mas, diante dos desafios atuais, já não é suficiente pensar apenas em reduzir danos. É preciso ir além.
Vivemos um momento em que não basta minimizar impactos: precisamos regenerar o que já foi degradado, principalmente pelo turismo de massa. É nesse contexto que surge o Turismo Regenerativo, uma abordagem que propõe não apenas conservar, mas transformar positivamente destinos, comunidades e pessoas.

Do Turismo Sustentável ao Regenerativo
O Turismo Sustentável é essencial frente à crise climática e aos impactos crescentes da atividade turística sobre ecossistemas e territórios. Ele busca reduzir efeitos negativos, respeitar a capacidade de suporte dos ambientes e valorizar a cultura local.
No entanto, com o avanço da degradação ambiental e das desigualdades sociais, tornou-se evidente que apenas "não causar danos" não é mais suficiente. Hoje, o turismo precisa contribuir ativamente para restaurar ecossistemas, fortalecer comunidades e promover justiça social.
Como afirmo em minha atuação profissional:
Trabalhar com turismo sustentável é compreender que fazemos parte de um todo. É respeitar moradores, valorizar culturas e cuidar da natureza como parte de um ecossistema que precisa de equilíbrio.
Assim, o turismo regenerativo surge como uma evolução natural desse pensamento, ampliando o olhar para ações concretas de transformação.
A Origem do Turismo Regenerativo
Quando comecei a trabalhar com turismo, percebi que viajar sempre foi muito mais do que deslocamento. Viajar é encontro, é transformação, é troca. Mas também é responsabilidade. Essa consciência, que hoje parece tão evidente para muitos profissionais, nasceu de um longo processo histórico.
Durante décadas, o turismo foi visto apenas como uma atividade econômica. O crescimento era o principal objetivo. Destinos queriam receber cada vez mais visitantes, gerar empregos e movimentar a economia. Porém, com o passar do tempo, começaram a surgir os primeiros sinais de alerta: degradação ambiental, perda cultural, exploração de comunidades e uso excessivo de recursos naturais. Foi nesse contexto que a humanidade percebeu que o planeta não era infinito.
A origem do pensamento sustentável está ligada à própria relação humana com a natureza. Em diversos países de clima frio, por exemplo, as comunidades dependiam das florestas para sobreviver. A madeira era usada para aquecimento, construção e energia. No entanto, o corte excessivo de árvores começou a gerar escassez. Foi necessário aprender a reflorestar para garantir que as futuras gerações também tivessem acesso aos recursos naturais. Esse entendimento deu origem ao conceito de sustentabilidade: usar hoje, mas preservar para o amanhã.
Foi somente em 1992 que o termo "turismo sustentável" ganhou força global. Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, conhecida como Rio-92, o mundo passou a discutir de forma estruturada a relação entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. O turismo passou a ser compreendido como uma atividade que deveria aliar experiência, consciência ambiental, respeito cultural e justiça social.
Mas por que isso aconteceu naquele momento?
Porque o turismo de massa havia crescido rapidamente após a Segunda Guerra Mundial. O aumento do poder de consumo, o avanço da aviação e a globalização tornaram as viagens mais acessíveis. Com isso, surgiram impactos negativos: poluição, descaracterização de destinos, desigualdade social e pressão sobre recursos naturais. O turismo sustentável surgiu como resposta a esses desafios, buscando reduzir danos e equilibrar crescimento com preservação.
No entanto, com o passar dos anos, foi entendido que apenas "reduzir impactos" já não era suficiente. Muitos destinos continuavam sofrendo, mesmo com práticas sustentáveis. Foi então que o conceito de turismo regenerativo começou a ganhar força.
O termo "turismo regenerativo" não possui um único criador, mas se consolidou a partir das reflexões e práticas promovidas por profissionais visionários como Anna Pollock, fundadora da Conscious Travel. No final dos anos 2010, ela passou a defender que a sustentabilidade, embora essencial, era apenas o primeiro passo. Para ela, o turismo deveria ir além de reduzir danos: precisava regenerar, restaurar e melhorar os lugares visitados.
Esse pensamento foi influenciado por abordagens sistêmicas e pela ideia de regeneração aplicada à cultura e aos ecossistemas, defendida por pensadores como Daniel Christian Wahl, autor do livro Designing Regenerative Cultures. A proposta era simples e profunda ao mesmo tempo: o turismo não deveria ser neutro, mas uma força positiva.
Gosto de explicar o turismo regenerativo de forma comparativa. Assim como no esporte, existe o treino regenerativo, que não busca desempenho imediato, mas recuperação e fortalecimento. Ele prepara o corpo para continuar evoluindo sem se desgastar. No turismo, o regenerativo é esse elo silencioso que conecta desenvolvimento e equilíbrio. Ele fortalece territórios, culturas e ecossistemas para que possam continuar vivos e prósperos.
Esse conceito surgiu também como resposta à crise do turismo de massa. Muitos destinos estavam saturados. Comunidades locais não se sentiam parte da atividade. O turismo regenerativo propõe uma nova lógica: colocar as pessoas e o território no centro das decisões, valorizar a cultura local, fortalecer a economia circular e restaurar a natureza.
No Brasil, diversos profissionais, pesquisadores e comunidades vêm fortalecendo essa visão. Iniciativas de turismo de base comunitária, povos originários, quilombolas e projetos ligados à conservação ambiental têm sido referências.
Hoje, quando escrevo e atuo no turismo, compreendo que estamos vivendo uma transição. O turismo sustentável continua sendo essencial, pois estabelece as bases da responsabilidade. Mas o turismo regenerativo representa um novo nível de consciência. Ele nos convida a pensar: como a minha viagem pode deixar um lugar melhor do que encontrou?
Mais do que um conceito, o turismo regenerativo é um movimento. Ele resgata saberes ancestrais, valoriza comunidades, fortalece territórios e promove conexões humanas verdadeiras. Não se trata apenas de preservar o que existe, mas de criar futuros mais justos, inclusivos e equilibrados.
E é por isso que acredito que o turismo do futuro não será apenas sustentável. Ele será regenerativo, inclusivo e transformador. Porque viajar, no fundo, sempre foi sobre cuidar do mundo e de nós mesmos.
Lançamento Sala Braile IFCE
Com base nesse pensamento, compreendi que a maior carencia do Turismo Regenerativo e Inclusivo eram os profissionais que atuavam na aréa, com isso foi iniciado meu estudo cientifico que levei para a sala de aula.
"Nada sobre nós, sem nós"
E assim em 2024 iniciou a construção de capacitações e palestras voltado para o Turismo Sustentável, Regenerativo e Incluivo.
Turismo Sustentável: O ponto de partida
O turismo sustentável se baseia em três pilares fundamentais:
- Socialmente justo
- Ambientalmente correto
- Economicamente viável
Esses princípios foram fundamentais para orientar o setor e promover consciência ambiental. Contudo, diante das mudanças climáticas e das desigualdades estruturais, é necessário avançar.
Não basta evitar novos impactos. É preciso reparar danos já existentes e transformar a forma como nos relacionamos com o mundo.
Turismo Regenerativo: A Evolução Necessária
O turismo regenerativo propõe:
- Restaurar ecossistemas degradados
- Fortalecer comunidades locais
- Promover inclusão e justiça social
- Valorizar saberes tradicionais
- Criar conexões humanas profundas
- Reduzir impactos futuros
Não se trata apenas de preservar, mas de revitalizar relações humanas e ambientais, deixando um legado positivo nos territórios visitados.
Turismo Inclusivo e Regenerativo: Caminhos que caminham juntos
Ao longo dos últimos anos, venho desenvolvendo práticas de turismo inclusivo, especialmente na região da Sabiaguaba, no Ceará. Ao promover vivências com pessoas cegas, surdas, cadeirantes, neurodivergentes, pessoas idosas e outros públicos historicamente excluídos, percebo impactos transformadores.
Essa atuação combate não apenas barreiras físicas, mas também:
- Capacitismo
- Etarismo
- Preconceitos estruturais
- Exclusão social
Quando esses visitantes ocupam espaços naturais e culturais, quebram paradigmas. A transformação acontece primeiro nas pessoas, depois nas relações e, por fim, no território.
Por isso, Turismo Inclusivo e Turismo Regenerativo devem caminham lado a lado. Ao promover inclusão, regeneramos o fator humano, fortalecendo empatia, respeito e pertencimento.
Inclusão produtiva e desenvolvimento econômico
A inclusão também é estratégia de desenvolvimento. Preparar o mercado para atender pessoas com deficiência significa:
- Gerar oportunidades
- Ampliar o consumo inclusivo
- Fortalecer economias locais
- Criar experiências acessíveis e inovadoras
"O turismo acessível, quando bem estruturado, gera impacto econômico real e mensurável. A inclusão deixa de ser apenas obrigação legal e passa a ser compreendida como inovação e diferencial competitivo."
A prática: A experiência da Viaje com T&C

A T&C Assessoria de Viagens e Turismo atua de forma estratégica e pioneira no Ceará com o turismo de experiência, sustentável, inclusivo e regenerativo, desenvolvendo projetos que vão além da comercialização de viagens. A empresa integra propósito, impacto social e cuidado com o território, promovendo vivências transformadoras que conectam pessoas, cultura, natureza e comunidades locais.
Seu trabalho é fundamentado em princípios de acessibilidade, diversidade, educação ambiental e fortalecimento da economia local, contribuindo para um modelo de turismo que gera valor coletivo, respeita a identidade cultural e promove a regeneração dos destinos.
Entre as iniciativas de destaque está a Rota dos Sentidos Ceará, que propõe experiências sensoriais e inclusivas, permitindo que pessoas com e sem deficiência vivenciem o território de forma acessível, afetiva e participativa. O projeto valoriza os saberes tradicionais, o turismo de base comunitária e a conexão profunda com a natureza, estimulando o protagonismo local e a construção de memórias significativas.
Outro importante projeto é o Sabiaguaba Encantada, que desenvolve um turismo regenerativo baseado na reconexão com o meio ambiente e na valorização do patrimônio natural e cultural da comunidade. A iniciativa promove experiências que despertam o cuidado, a consciência ecológica e o pertencimento, fortalecendo o vínculo entre visitantes e território.
As ações realizadas incluem:
- Trilhas sensoriais acessíveis e inclusivas
- Oficinas educativas e ambientais
- Vivências de reconexão com a natureza
- Atividades voltadas para pessoas com deficiência e famílias atípicas
- Projetos com estudantes de escolas públicas e privadas
- Formação e capacitação de jovens periféricos
- Educação para o turismo sustentável e regenerativo
- Desenvolvimento de experiências com impacto social positivo
Além disso, a T&C atua na formação e qualificação do mercado, oferecendo capacitações, palestras e consultorias em instituições como o Instituto Federal do Ceará, contribuindo para preparar profissionais e empresas para os desafios e oportunidades do turismo do futuro, alinhados aos princípios de ESG, acessibilidade e inovação social.
Essa atuação fortalece o sentimento de pertencimento, estimula o cuidado com o meio ambiente e promove a regeneração ambiental, social e econômica dos territórios. Mais do que viagens, a T&C constrói pontes entre pessoas, destinos e propósitos, consolidando-se como referência em turismo inclusivo e regenerativo no Ceará e no Brasil.
Turismo Sustentável 3.0:
A nova era das experiências e da centralidade humana
A evolução do turismo acompanha as transformações sociais, ambientais e tecnológicas do mundo. Se antes o foco estava apenas no deslocamento e no consumo de destinos, hoje avançamos para um modelo que integra propósito, impacto e conexão. É nesse contexto que surge o conceito que costumo chamar de Turismo Sustentável 3.0, uma nova abordagem que une práticas do turismo regenerativo, inclusivo e de base comunitária, colocando o fator humano como pilar principal das vivências.
Ao longo das últimas décadas, diferentes fases do turismo sustentável foram sendo construídas. A partir das discussões impulsionadas por organismos internacionais como a Organização Mundial do Turismo, o turismo passou a ser compreendido como ferramenta de desenvolvimento.
Na primeira fase, conhecida como Turismo 1.0, o foco estava na redução de impactos negativos, com ações voltadas principalmente à conservação ambiental e à gestão de recursos. Na etapa seguinte, o Turismo 2.0, surgiram práticas mais participativas, valorizando a sustentabilidade econômica, social e cultural, com maior atenção às comunidades locais e à responsabilidade socioambiental.
O Turismo Sustentável 3.0, no entanto, propõe um salto qualitativo. Ele não busca apenas reduzir danos ou gerar benefícios, mas regenerar territórios, transformar pessoas e fortalecer relações humanas. Nesse modelo, o centro não é o destino nem o produto turístico, mas a experiência vivida e os vínculos criados entre visitantes, comunidades e natureza.
A proposta parte do entendimento de que viagens e visitações são oportunidades de educação, empatia e construção de consciência coletiva. Quando pessoas diversas, com diferentes histórias, culturas, idades e condições vivenciam territórios de forma sensível, acessível e consciente, promovem mudanças profundas que ultrapassam o momento da viagem.
Nesse contexto, o fator humano torna-se o principal elemento de transformação. Cada roteiro, experiência ou vivência é desenhado para despertar sentidos, provocar reflexões e estimular o pertencimento. O turista deixa de ser apenas consumidor e passa a ser agente de impacto positivo.
Quando esse encontro acontece de forma ética, inclusiva e regenerativa, observam-se resultados como:
- Mudanças culturais e ampliação de perspectivas
- Redução de preconceitos e fortalecimento da empatia
- Valorização da diversidade e da acessibilidade
- Fortalecimento de vínculos afetivos com os territórios
- Construção de valores éticos e socioambientais
- Desenvolvimento de comunidades locais
- Estímulo à economia circular e ao turismo de base comunitária
O impacto não se limita ao período da experiência. Ele ecoa na vida dos viajantes, nas comunidades visitadas e nas futuras gerações, criando um ciclo de consciência e cuidado contínuo. Assim, o Turismo Sustentável 3.0 propõe uma jornada que vai além da sustentabilidade tradicional: trata-se de cuidar de pessoas para regenerar o planeta.
Mais do que viajar, essa nova era convida a sentir, aprender, respeitar e transformar. É o turismo como ferramenta de inclusão, educação e mudança social, onde cada experiência gera significado, pertencimento e legado.
Turismo como ponte para educação e ética
O turismo pode se tornar uma poderosa ferramenta de transformação, capaz de promover educação ambiental, ao despertar a consciência sobre o cuidado com a natureza; desenvolvimento humano, ao ampliar repertórios, estimular o autoconhecimento e fortalecer habilidades socioemocionais; construção de valores éticos e sustentáveis, baseados no respeito, na responsabilidade e na coletividade; e a formação de uma sociedade mais empática, por meio do encontro com diferentes culturas, realidades e modos de vida.
As experiências regenerativas, alinhadas às diretrizes defendidas pela Organização Mundial do Turismo, despertam de forma natural o cuidado com o planeta e com as pessoas. Nesse processo, a viagem deixa de ser apenas lazer e passa a representar uma jornada de aprendizado, conexão profunda com os territórios e transformação individual e coletiva.
O Futuro é Regenerativo!

O Turismo Regenerativo representa uma evolução conceitual e prática do turismo sustentável. Enquanto o modelo sustentável busca reduzir impactos negativos, o regenerativo propõe a
restauração ativa, o fortalecimento comunitário e o cuidado integral com a vida. Não se trata apenas de preservar, mas de revitalizar ecossistemas, culturas e relações humanas.
O turismo consciente torna-se, assim, uma ferramenta estratégica de transformação. Empresas e profissionais deixam de ser apenas prestadores de serviço e passam a atuar como agentes de mudança socioambiental. Mais do que visitar destinos, trata-se de construir um novo modo de viver e de se relacionar com o mundo.
O futuro do turismo não está apenas nos lugares. Está nas pessoas, nas experiências e na forma como escolhemos cuidar do planeta.
Que venha o Turismo 3.0. E não estou falando de um turismo baseado apenas em tecnologias ou inteligências artificiais, mas de um turismo genuinamente humano. A tecnologia continuará avançando e avançaremos juntos com ela, ampliando acessos, conectando territórios e criando novas possibilidades. No entanto, por mais sofisticada que seja, ela será sempre resultado do que nós, seres humanos, ensinamos, sentimos e projetamos.
Mesmo que especulações ou filmes de ficção científica imaginem máquinas capazes de sentir, compreender emoções ou praticar empatia, é o ser humano que continuará treinando essas tecnologias. E, se um dia o fator humano puder ser inserido em máquinas, no final a essência será a mesma: altruísmo, empatia, resiliência e consciência.
Não importa qual tecnologia o futuro tenha a nos oferecer, seja por meio de pessoas de carne e osso ou de sistemas inteligentes, o fator humano será sempre o principal agente na regeneração de ecossistemas e civilizações, ainda que, muitas vezes, também tenha sido o responsável por sua destruição.
Hoje, continuo acreditando que nós somos a chave para um mundo melhor. E que esse caminho também passa pelo Turismo.
Um Turismo que Regenera, Inclui, Educa e Transforma.
Tamara Colares
Publicitária
Pós-graduada em Meio Ambiente e Sustentabilidade

