Ecoturismo X Exercício Ilegal da Profissão
Quando uma pessoa decide conhecer um destino, seja turista ou moradora da própria região, normalmente busca referências. Pergunta para amigos, procura recomendações na internet, acompanha perfis nas redes sociais, consulta agências de turismo ou busca alguém experiente para proporcionar uma experiência mais segura e enriquecedora.
No ecoturismo, essa dinâmica não é diferente. Quem deseja conhecer uma cachoeira, uma trilha, uma comunidade tradicional, uma montanha ou qualquer área natural costuma procurar alguém que já conheça o local. Afinal, as pessoas não querem apenas visitar um lugar; querem compreender sua história, descobrir curiosidades, conhecer os melhores caminhos e viver experiências memoráveis.
O problema surge quando as informações que deveriam orientar acabam gerando confusão.
Nos últimos anos, houve um crescimento expressivo do interesse por atividades ao ar livre. Cada vez mais pessoas organizam passeios, caminhadas, vivências, expedições, observações da natureza e experiências culturais. Isso é extremamente positivo, mas também levanta questões importantes sobre sustentabilidade, profissionalização, segurança e responsabilidade.
E é justamente sobre isso que precisamos conversar.
Afinal, o que é ecoturismo?
Muitas pessoas associam ecoturismo apenas a trilhas e cachoeiras. No entanto, o conceito é muito mais amplo.
De acordo com os princípios do turismo sustentável, o ecoturismo envolve atividades realizadas em ambientes naturais com foco na apreciação da natureza, na conservação ambiental, na interpretação do patrimônio natural e cultural e na geração de benefícios para as comunidades envolvidas.
Dentro desse universo existem diversas modalidades, como:
- Observação de aves (birdwatching);
- Observação da fauna silvestre;
- Observação de baleias e vida marinha;
- Observação de insetos, anfíbios e répteis;
- Astroturismo;
- Trilhas interpretativas;
- Caminhadas ecológicas;
- Trekking e hiking;
- Montanhismo;
- Escalada;
- Rapel;
- Canionismo;
- Espeleoturismo;
- Cicloturismo em ambientes naturais;
- Turismo de aventura;
- Turismo científico;
- Turismo geológico e de paisagens;
- Turismo náutico;
- Canoagem;
- Caiaque;
- Stand Up Paddle;
- Mergulho recreativo e snorkeling;
- Turismo em rios, lagos e manguezais;
- Turismo rural;
- Turismo em áreas protegidas e unidades de conservação;
- Turismo de base comunitária;
- Vivências agroecológicas;
- Turismo de experiência ligado à natureza;
- Turismo cultural associado a territórios tradicionais.
O ecoturismo é, portanto, extremamente diverso. Porém, existe uma confusão bastante comum: nem toda atividade realizada na natureza pode ser considerada sustentável.
O erro de achar que natureza significa sustentabilidade
Existe uma ideia amplamente difundida de que qualquer atividade realizada em um ambiente natural contribui automaticamente para a conservação ambiental. Infelizmente, isso não é verdade.
Uma trilha pode ocorrer em uma área preservada e ainda gerar impactos negativos. Uma cachoeira pode receber centenas de visitantes diariamente sem qualquer controle. Uma comunidade tradicional pode receber turistas sem participar dos benefícios econômicos gerados. Da mesma forma, uma empresa pode utilizar imagens da natureza em sua divulgação sem adotar práticas sustentáveis.
Sustentabilidade vai muito além do simples contato com a natureza.
Os três pilares da sustentabilidade
Para que uma atividade seja verdadeiramente sustentável, ela precisa respeitar três pilares fundamentais:
Ambientalmente correta
A atividade deve minimizar impactos ambientais, respeitar a capacidade de suporte dos locais visitados e contribuir para a conservação dos ecossistemas. Isso inclui gestão adequada de resíduos, controle do fluxo de visitantes, respeito à fauna e à flora, educação ambiental, uso responsável dos recursos naturais e monitoramento dos impactos da visitação.
Economicamente viável
O turismo precisa gerar renda, mas não apenas para uma única empresa ou grupo. A atividade deve criar oportunidades para toda a cadeia produtiva, beneficiando guias, condutores, hospedagens, restaurantes, artesãos, agricultores familiares, transportadores e demais prestadores de serviços.
Socialmente justa
Este é talvez o aspecto mais negligenciado. Justiça social no turismo significa inclusão, participação e protagonismo local. Uma atividade não pode ser considerada plenamente sustentável quando as comunidades locais são ignoradas ou excluídas dos benefícios gerados pela visitação.
Nem todo turismo na natureza é turismo de base comunitária
Antes de tudo, é importante entender o que é o Turismo de Base Comunitária.
De forma simples, o Turismo de Base Comunitária acontece quando o visitante vai até uma comunidade para conhecer seu modo de vida, sua cultura, seus saberes, suas tradições e sua relação com o território. O diferencial é que a comunidade continua vivendo sua rotina normalmente. Os moradores não mudam seu jeito de viver para atender ao turismo; é o turismo que se adapta à realidade da comunidade.
O visitante participa de experiências autênticas, observando e valorizando o cotidiano local. A pesca artesanal continua acontecendo. O artesanato continua sendo produzido. As celebrações culturais mantêm seu significado original. A vida da comunidade não gira em torno do turista.
Quando a principal razão de existir de uma comunidade passa a ser atender visitantes, existe o risco de perder uma das características fundamentais do Turismo de Base Comunitária: a autenticidade. O turismo deve complementar a vida da comunidade, e não substituí-la.
Outra confusão frequente é acreditar que uma atividade realizada dentro de uma comunidade automaticamente se enquadra como Turismo de Base Comunitária.
Na realidade, o Turismo de Base Comunitária é um modelo específico de desenvolvimento turístico no qual a comunidade participa das decisões, da gestão, da operação e da distribuição dos benefícios econômicos.
Nesse modelo, os moradores não são apenas espectadores; são protagonistas.
Entretanto, nem sempre isso acontece. Em diversas regiões do Brasil, o crescimento do turismo trouxe valorização imobiliária, especulação de terras e pressão econômica sobre comunidades tradicionais. Em alguns casos, moradores foram afastados de territórios onde viveram por gerações. Em outros, permanecem em seus territórios sem participar efetivamente dos ganhos gerados pela atividade turística.
Há situações em que hotéis, pousadas, restaurantes e operadoras prosperam ao redor de uma comunidade, enquanto os moradores recebem apenas uma pequena parcela dos benefícios. O território gera riqueza, mas essa riqueza nem sempre permanece com quem ajudou a preservar aquele lugar ao longo dos anos.
E quando uma comunidade consegue preservar sua identidade cultural, surge outro desafio: o turismo de massa.
O excesso de visitantes pode transformar experiências genuínas em produtos padronizados, pressionar os recursos naturais, gerar conflitos e descaracterizar aquilo que originalmente atraía os visitantes. O que era uma vivência autêntica pode acabar se tornando apenas um espetáculo para consumo.
Por isso, o verdadeiro Turismo de Base Comunitária não é definido pela localização da atividade, mas pelo protagonismo da comunidade. É ela quem deve participar das decisões, receber benefícios justos e manter sua autonomia sobre o território, sua cultura e seu modo de vida.
Quando isso acontece, o turismo deixa de ser apenas uma atividade econômica e passa a ser uma ferramenta de valorização cultural, conservação ambiental e fortalecimento comunitário.
Quando o sucesso se transforma em ameaça
Muitos destinos começam de forma simples: uma cachoeira pouco conhecida, uma trilha utilizada apenas pelos moradores, uma comunidade tradicional preservada ou um rio praticamente desconhecido. Então surge uma publicação nas redes sociais. Depois um vídeo. Em seguida chegam influenciadores, excursões e grandes fluxos de visitantes.
O que parecia uma oportunidade pode rapidamente se transformar em problema.
Entre os impactos mais comuns estão:
- Infraestrutura insuficiente;
- Acúmulo de lixo;
- Pressão sobre recursos naturais;
- Conflitos com moradores;
- Aumento do custo de vida local;
- Perda de identidade cultural.
Por isso, turismo sustentável exige planejamento. E planejamento exige diálogo.
O desafio do turismo de base comunitária
Falar sobre turismo de base comunitária é relativamente simples. Implementá-lo, porém, é muito mais complexo.
É necessário equilibrar interesses distintos. A comunidade deseja preservar sua cultura, seu território e sua qualidade de vida. As empresas precisam manter viabilidade econômica. Os visitantes buscam experiências de qualidade. O poder público deve oferecer infraestrutura adequada e criar políticas eficientes.
Nenhum desses atores pode ser ignorado.
Quando um deles domina completamente o processo, os desequilíbrios surgem. Por isso, o turismo sustentável depende de governança, participação e corresponsabilidade.
E quando surgem vivências sem profissionais qualificados?
Esse é um tema que costuma gerar debates, especialmente nas redes sociais. É comum encontrarmos pessoas organizando trilhas, vivências ecológicas, caminhadas culturais e experiências na natureza. Muitas possuem um conhecimento superficial sobre os locais que divulgam outros conhecem determinada região melhor do que profissionais vindos de fora.
Nos últimos anos, o crescimento das redes sociais transformou destinos pouco conhecidos em locais extremamente visitados em questão de dias. Um vídeo viral, uma postagem com milhares de curtidas ou uma sequência de imagens impactantes pode despertar o interesse de centenas ou milhares de pessoas para um único local. Mas será que toda divulgação é positiva?
Até onde vale a pena buscar likes, visualizações e engajamento quando o resultado pode ser a degradação de um ambiente natural?
Muitos influenciadores, criadores de conteúdo e até visitantes bem-intencionados compartilham coordenadas, trilhas ocultas, caminhos de acesso, atalhos e áreas sensíveis sem refletir sobre as consequências dessas informações. Ao mapear locais frágeis e divulgar rotas sem qualquer orientação técnica, acabam incentivando que pessoas visitem áreas naturais sem o acompanhamento de guias, condutores locais ou empresas responsáveis.
Os riscos são inúmeros.
Há riscos para a segurança dos visitantes, que podem se perder, sofrer acidentes, desidratação, quedas ou enfrentar situações de emergência sem qualquer apoio. Há riscos para as comunidades locais, que muitas vezes precisam lidar com impactos sem receber qualquer benefício econômico. Há riscos para a fauna e para a flora, que sofrem com o aumento desordenado da visitação. E existem impactos culturais, quando espaços sagrados, territórios tradicionais e patrimônios comunitários passam a ser consumidos apenas como cenários para fotografias.
Nem toda informação deve ser compartilhada sem critério.
Na natureza, uma simples publicação pode desencadear processos irreversíveis. Trilhas podem sofrer erosão acelerada. Dunas podem ser degradadas. Ninhos podem ser abandonados. Espécies podem ser afugentadas. Áreas de preservação podem sofrer ocupação indevida. O excesso de visitantes pode comprometer justamente aquilo que tornou aquele lugar especial.
Quando alguém divulga um destino apenas para gerar alcance, sem considerar a capacidade de suporte da área, sem orientar sobre boas práticas e sem valorizar quem protege aquele território diariamente, está contribuindo para um modelo de turismo extrativista, e não regenerativo.
O turismo regenerativo propõe exatamente o contrário. Ele nos convida a visitar um lugar com respeito, responsabilidade e consciência. Significa compreender que somos passageiros naquele ambiente e que devemos deixar uma contribuição positiva para as futuras gerações.
Por isso, ao divulgar destinos naturais, a recomendação é agir com cautela. Sempre que possível, valorize e indique guias locais, condutores ambientais, moradores capacitados e empresas comprometidas com a sustentabilidade. São essas pessoas que conhecem os riscos, a história, os limites e as fragilidades do território.
Viajar não deve ser apenas consumir paisagens. Viajar é criar conexões, gerar renda para as comunidades locais, respeitar a biodiversidade e contribuir para a conservação dos lugares visitados.
Quem visita a natureza também assume uma responsabilidade.
Leve seu lixo de volta. Respeite as trilhas oficiais. Não retire plantas, animais ou elementos naturais. Evite sons excessivos. Siga as orientações dos condutores. Apoie os empreendimentos locais. E, acima de tudo, procure deixar o lugar melhor do que encontrou. A verdadeira influência não está em revelar todos os caminhos. Está em inspirar atitudes responsáveis. Porque algumas curtidas duram segundos. Os impactos de uma divulgação irresponsável podem durar décadas.

Legislação e Regulamentação Profissional
A profissão de Guia de Turismo é regulamentada pela Lei nº 8.623/1993, que estabelece as atribuições e requisitos para o exercício legal da atividade no Brasil.
De acordo com a Lei nº 8.623/1993, a profissão de Guia de Turismo é regulamentada no Brasil, sendo necessária habilitação específica e cadastro junto ao Cadastur para o exercício legal da atividade.
A referida lei é regulamentada pelo Decreto nº 946/1993, que detalha as competências, responsabilidades e condições para atuação dos Guias de Turismo. A regulamentação profissional busca garantir qualidade, segurança e responsabilidade na prestação dos serviços turísticos, protegendo tanto os visitantes quanto os profissionais que atuam no setor.
O que é o Cadastur?
O Cadastur é o sistema oficial de cadastro do Ministério do Turismo, obrigatório para determinadas atividades turísticas, entre elas a profissão de Guia de Turismo. O cadastro contribui para a formalização, qualificação e segurança dos serviços prestados aos turistas.

Guia de Turismo e Condutores: Entenda as Diferenças
Um dos pontos que mais gera dúvidas no turismo de natureza é a diferença entre as funções exercidas pelos diversos profissionais que atuam na condução de visitantes.
"O conhecimento tradicional e territorial possui enorme valor, mas a atuação profissional deve respeitar as competências, responsabilidades e regulamentações previstas para cada atividade."
Entenda as diferenças entre Guia de Turismo, Condutores e Profissionais Ambientais
Guia de Turismo
O Guia de Turismo é um profissional regulamentado pela Lei nº 8.623/1993 e pelo Decreto nº 946/1993. A formação deve ocorrer por meio de curso técnico de formação profissional em Guia de Turismo, conforme critérios estabelecidos pelos órgãos competentes, possibilitando posteriormente o cadastro junto ao Ministério do Turismo, o CADASTUR DE GUIAS.
Sua função envolve acompanhar, orientar e prestar assistência aos visitantes durante passeios, excursões e viagens, transmitindo informações culturais, históricas, geográficas e turísticas sobre os destinos.
Exemplo: acompanhamento de grupos em roteiros turísticos comercializados por agências de viagens, receptivos ou operadoras.
Condutor Local
O Condutor Local é uma pessoa com forte vínculo e conhecimento sobre o território onde atua, geralmente um morador ou nativo da região, que desenvolve sua atuação a partir da vivência, capacitação e conhecimento adquirido sobre o local
Sua preparação normalmente envolve capacitações relacionadas ao meio ambiente, turismo de natureza, primeiros socorros, interpretação ambiental, fauna, flora e características do território onde atua.
Em muitos destinos, esse profissional é um morador local ou pessoa com forte vínculo com a região, possuindo conhecimentos adquiridos pela vivência, pela relação com a natureza e pelos saberes tradicionais da comunidade.
Exemplo: condução de visitantes em trilhas, dunas, manguezais, lagoas e áreas naturais, compartilhando conhecimentos sobre biodiversidade, cultura local e conservação ambiental.
Condutor de Visitantes
O Condutor de Visitantes atua principalmente em áreas protegidas, como unidades de conservação, parques e reservas, seguindo as normas estabelecidas pelo órgão responsável pela gestão da área.
Para atuar nesses locais, geralmente é necessário realizar capacitação específica conforme as regras da unidade de conservação ou instituição responsável.
Sua função está relacionada ao acompanhamento dos visitantes, orientação sobre normas de visitação, segurança e interpretação dos atrativos naturais e culturais.
Exemplo: condução de visitantes em parques estaduais, nacionais, reservas ambientais e áreas protegidas.
Monitor Ambiental
O Monitor Ambiental atua principalmente em atividades educativas, recreativas e de sensibilização ambiental.
Normalmente possui capacitação voltada para educação ambiental, sustentabilidade, conservação dos recursos naturais e atividades pedagógicas.
Seu papel é apoiar processos educativos, aproximando visitantes, estudantes e comunidades das questões ambientais.
Exemplo: acompanhamento de grupos escolares em trilhas educativas, ações de conscientização e projetos ambientais.
Educador Ambiental
O Educador Ambiental é o profissional dedicado ao desenvolvimento de ações de educação, conscientização e formação relacionadas ao meio ambiente e à sustentabilidade.
Pode possuir formação em áreas como Meio Ambiente, Ciências Biológicas, Pedagogia, Gestão Ambiental ou áreas relacionadas, além de conhecimentos específicos em educação ambiental.
Sua atuação busca estimular mudanças de comportamento e promover a relação responsável entre sociedade e natureza.
Exemplo: realização de palestras, oficinas, projetos socioambientais e atividades educativas sobre conservação ambiental e sustentabilidade.
Condutor de Unidade de Conservação
O Condutor de Unidade de Conservação é um profissional capacitado para atuar em áreas protegidas, seguindo as regras e critérios definidos pelo órgão gestor responsável pela unidade.
Sua preparação pode envolver cursos específicos de condução, interpretação ambiental, legislação ambiental, segurança e conhecimento da área protegida.
Sua atuação contribui para organizar a visitação, proteger os recursos naturais e proporcionar uma experiência segura aos visitantes.
Exemplo: condução de visitantes em parques nacionais, estaduais, reservas e outras áreas protegidas.
A importância da atuação integrada
O turismo sustentável não deve ser construído pela substituição de um profissional pelo outro, mas pela integração dos diferentes conhecimentos.
O Guia de Turismo possui uma formação profissional regulamentada e responsabilidade relacionada à operação turística. O condutor ambiental e o morador local possuem conhecimentos essenciais sobre o território, a natureza e a cultura da comunidade. O educador ambiental contribui para sensibilização e transformação dos visitantes.
Quando essas competências trabalham juntas, o turismo se torna mais seguro, educativo, inclusivo e conectado com a realidade dos destinos.
"O condutor local representa uma conexão fundamental com o território, pois agrega conhecimentos ambientais, culturais e históricos da comunidade. Sua participação fortalece o turismo sustentável, desde que sua atuação esteja alinhada às normas aplicáveis ao tipo de atividade desenvolvida."
Importante
Nem toda pessoa que conduz uma atividade na natureza está necessariamente exercendo ilegalmente a profissão de Guia de Turismo. A caracterização depende da atividade realizada, da forma de comercialização, das atribuições exercidas e da legislação aplicável.
Da mesma forma, a presença de um morador local ou de um condutor ambiental não reduz a importância do Guia de Turismo quando sua atuação for exigida pela legislação. As funções são complementares e contribuem para uma experiência mais segura, educativa e enriquecedora para os visitantes.
"A valorização do morador local não significa substituir profissionais regulamentados, assim como a presença do Guia de Turismo não substitui os saberes e a história de quem pertence ao território."
Turismo Regenerativo: Um Passo Além da Sustentabilidade
O turismo regenerativo busca fortalecer os territórios de forma integrada, promovendo benefícios ambientais, sociais e econômicos, com o objetivo de gerar um legado positivo para moradores, visitantes e futuras gerações.
Mais do que preservar, essa abordagem propõe uma relação de cuidado e contribuição ativa com os destinos, incentivando a conservação ambiental, a valorização cultural, o fortalecimento das comunidades locais e o desenvolvimento econômico responsável.
Nesse modelo, visitantes, empresas, comunidades anfitriãs e gestores compartilham a responsabilidade de construir experiências que contribuam para a regeneração dos territórios, promovendo impactos positivos e duradouros.
Uma provocação para reflexão

Se um professor conduz uma trilha em um local que conhece profundamente, ele automaticamente se torna Guia de Turismo?
Se uma pessoa possui amplo conhecimento sobre geografia, história ou biodiversidade de uma região, isso significa que ela está automaticamente habilitada para exercer a atividade de professor de uma escola ou faculdadel?
A resposta pode parecer contraditória: sim e não.
O conhecimento não nasce apenas dos diplomas. Existem mestres da vida, guardiões da memória, moradores que conhecem um território melhor do que muitos pesquisadores e pessoas com décadas de experiência prática. Esses saberes possuem enorme valor e são fundamentais para um turismo mais autêntico, especialmente quando falamos de ecoturismo e turismo de base comunitária.
Por outro lado, algumas profissões possuem regulamentações específicas. Ter conhecimento sobre determinado assunto não significa, automaticamente, possuir habilitação profissional para exercer todas as atividades relacionadas àquele conhecimento.
Um professor de história ou geografia pode possuir um conhecimento profundo sobre determinado território, assim como um biólogo pode dominar informações sobre uma floresta. Porém, quando esse conhecimento passa a ser utilizado para comercializar uma experiência turística aberta ao público, como uma trilha, passeio ecológico ou roteiro turístico, é necessário observar as regulamentações aplicáveis ao setor.
De acordo com a Lei nº 8.623/1993, que regulamenta a profissão de Guia de Turismo no Brasil, o exercício da atividade de Guia de Turismo exige habilitação específica e cadastro junto ao Cadastur, sistema oficial do Ministério do Turismo.
O Decreto nº 946/1993, que regulamenta a referida lei, estabelece as atribuições e responsabilidades relacionadas ao exercício da profissão.
Dessa forma, quando uma atividade turística é comercializada como produto turístico, envolvendo acompanhamento, orientação e condução de visitantes, é necessário que a operação esteja organizada conforme a legislação vigente, respeitando as exigências relacionadas à empresa prestadora do serviço e aos profissionais envolvidos.
Isso não significa desvalorizar o conhecimento do morador local, do educador ambiental, do pesquisador ou do especialista em determinado território. Pelo contrário: esses conhecimentos são essenciais para enriquecer a experiência turística.
A valorização do território acontece quando existe equilíbrio entre conhecimento tradicional, qualificação profissional e responsabilidade legal.
Da mesma forma que determinadas atividades profissionais possuem critérios de formação e habilitação, omo ocorre em diversas áreas de atuação, o turismo também possui normas estabelecidas para garantir segurança, qualidade e responsabilidade aos visitantes.
Muitas pessoas acabam realizando atividades turísticas sem compreender completamente essas exigências, não necessariamente por má-fé, mas muitas vezes por desconhecimento das regulamentações existentes.
Quando falamos de turismo, estamos falando de segurança, responsabilidade, direitos dos visitantes, valorização das comunidades locais, conservação ambiental e profissionalização do setor.
Nos casos em que a atividade acontece em comunidades tradicionais ou territórios locais, é fundamental respeitar os princípios do turismo sustentável e do turismo de base comunitária, garantindo a participação e valorização dos moradores locais, incluindo a contratação de condutores ou profissionais da própria comunidade quando houver essa atuação.
Um turismo verdadeiramente sustentável não depende apenas de belas paisagens. Ele depende das pessoas, dos territórios, da legalidade, da qualificação profissional e do compromisso coletivo com o futuro dos destinos que tanto admiramos.
A discussão está longe de terminar e talvez nem termine. Afinal, é por meio do diálogo, do respeito aos diferentes saberes e da busca pelo equilíbrio que construímos um turismo mais responsável, inclusivo e sustentável para todos.
"Na Viaje com T&C, acreditamos que o turismo responsável nasce do equilíbrio entre conhecimento técnico, valorização das comunidades locais, respeito à natureza e experiências que geram conexão verdadeira com os territórios."

Referências
BRASIL. Decreto nº 946, de 1º de outubro de 1993. Regulamenta a Lei nº 8.623, de 28 de janeiro de 1993, que dispõe sobre a profissão de Guia de Turismo. Brasília, DF: Presidência da República, 1993.
BRASIL. Lei nº 8.623, de 28 de janeiro de 1993. Dispõe sobre a profissão de Guia de Turismo e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1993.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996.
BRASIL. Portaria MTur nº 37, de 11 de novembro de 2021. Dispõe sobre normas que disciplinam o exercício da atividade de Guia de Turismo. Brasília, DF: Ministério do Turismo, 2021.
MINISTÉRIO DO TURISMO. Cadastur: Sistema de Cadastro de Pessoas Físicas e Jurídicas que atuam no setor do turismo. Brasília, DF: Ministério do Turismo.
MINISTÉRIO DO TURISMO. Ecoturismo: orientações básicas. Brasília, DF: Ministério do Turismo.
MINISTÉRIO DO TURISMO. Turismo de Base Comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras. Brasília, DF: Ministério do Turismo.
Sobre a autora
Tamara Colares é graduada em Publicidade e Propaganda, com pós-graduação em Meio Ambiente e Sustentabilidade, e atualmente cursa sua segunda pós-graduação em Docência no Ensino Superior.
CEO da Viaje com T&C, desenvolve experiências turísticas com foco em inclusão, acessibilidade e turismo regenerativo. Atua como palestrante e ministra capacitações em turismo e eventos inclusivos, além de sustentabilidade e práticas de ESG, sempre com o pilar da inclusão.
Criadora da "Rota dos Sentidos", atua na Sabiaguaba e em outros territórios do Ceará, integrando prática de campo, pesquisa e formação de profissionais para um turismo mais humano e transformador.

